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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Apóstrofe.

Debruço-me sobre o seu diário ornamentado com plástico rígido e costuras de vinil, o corte é rigoroso, exímia lide trançada que percorre ao avesso a já estabelecida renda concebida nos sonhos de quem tanto mimou este cabaz, devo crédito ao artesão que para aqui despejou as mais belas tonalidades laranja, na contracapa sugere a inscrição de tinta desbotada: “O porte descascado de uma laranja permitirá o alcovitar dos meus desgostos”, as páginas tintadas nas orlas distinguem-se facilmente, não marcam os parágrafos, capítulos ou numeram os contos, parte agrupam-se juntando-lhe vários caracteres que perfazem o seguinte: “Nestas estórias não nego a minha insignificância, às possibilidades que prezo não lhes viro a palma da minha mão”, dúzias de espaços vazios e rasgados de aflição, folheio...estudo mas nada encontro, “Daqui não escapa a morte, o meu manifesto considero-o obstruído, simples...muito simples”, este tosco bloco desfaz-se agora nas minhas mãos, mistura-se com a terra aos meus pés, esbate-se enquanto torço os dedos e consigo sentir-lhe o término: “Este mísero corte açoita-me o pescoço, esta secura abranda-me o tique nervoso na jugular”.

sábado, 18 de abril de 2009

Halogen Lights

Calcava todos os botões no painel do elevador, sentiu-lhes a aproximação e iniciou uma correria desesperada para que não o apanhassem novamente, qualquer um dos seus vizinhos seria capaz de lhe apontar de longe a quantidade de suor que trazia consigo na testa, olhava repetidamente para uma das pontas do saco de plástico que lhe passava por debaixo das pernas, desta vez usou um daqueles de rolos para o lixo, verde escuro para que não se apercebessem de nada, escoou lá de dentro a maior quantidade de sangue que lhe fora possível e juntou todos os pedaços que conseguiu apanhar a tempo, não terá sido esta a sua primeira vez mas acabou por voltar a repetir miseravelmente o mesmo tipo de falhas que o levaram à cadeia na ultima tentativa, desde o sucedido passou semanas a fio com uma série de desacertos cravados na memória, tornou-se numa tal obsessão que ficara impossibilitado de sair de casa, afectava-o de forma a que o seu rosto revelava perfeitamente a sua verdadeira natureza quando se sentia tentado a atravessar a porta escapando ao seu apartamento…

terça-feira, 14 de abril de 2009

[BLEEP] (*-25)

Aguardar a queda de pequenas gotículas enquanto percorro a areia sentindo o bater das ondas nos meus pés, iluminado desde lá de cima, apreender o som das ondas e inalar um pouco dessa tua essência que se mistura com a maresia...

Sentes na pele, nesse teu manto confortável, a ligeireza de um fôlego aquecido, trato de acariciar o teu corpo, persegues os teus sonhos e utilizas o meu toque, quero que te acostumes aos meus mimos...

A verdadeira insanidade é o emoldurar de um trajecto conjunto, delimitados estão aqueles que perseguem apenas a destruição, esses acabam abandonados por entre os escombros de uma vida enganada, do existir por cobardia...

O imenso empresta-nos este governar discreto,
Mas nós escapámo-nos de imediato, protegeste-me,
Permitiste-me acesso às imediações, devo-te tanto,
E aguardo o momento certo, que estejas preparada,
Quando o quiseres, quero que saibas que cá estarei,
Sempre que o quiseres, cá estarei,
Não sofras nas minhas mãos, diz-me se não o puder constatar,
Prometo-te que seguirás a tua procura, e ajudar-te-ei no que me for possível,
Não te sintas pressionada por estas minhas palavras,
Quero que sintas a espontaneidade do teu "eu",
Segue os teus impulsos, és livre tal como eu o sou.

Esgotaste-me as palavras, nem que por breves instantes,
Raro suceder digo-te já, fiquei sem o que proferir,
Mudaste-me pois de um toque profundo se tratou,
Nem imagino o que seria, ter que devolver esta sensação,
Esta mudança que provocaste dentro de mim,
Este acerto nosso, este sincronismo compartilhado,
Similares em atitudes, receios e aventuras desferidas,
Não nos despegámos, pois nunca estivemos separados,
Unidos desde sempre, retidos noutros lugares,
Sonhos encontrados, despertares em simultâneo,
Gosto-te pois és o outro "eu", és o novo "eu".

Manténs-me aquecido meu amor, acostumei-me às tuas palavras, confortas-me como sempre o desejaste, de feitio sedutor, cativas-me, revelas-me um incessante número de novos atributos, apaixonas-me e cresces em mim, a cada novo pigmento encontrado pretendo os que o sucedem, deixas-me perplexo e de palato aguçado, os teus estímulos atingem-me bem pertinho, em crescendo este prazer...

Tens-me contigo, tenho-te comigo,
Unos erguemo-nos, sigo-te de perto,
Digo-te, sinto a tua presença vivaz,
Onde esteja, encontras-te ao meu lado,

Onde o quiseres, estarei ao teu,

Quando despertas, também eu o faço,
Um sincronismo perfeito, adoro-te por isso,
Emprestas-me o teu sorriso, apreciamo-lo juntos,

Quando te beijo, sinto essa tua força,
Uns dias cedo, outros mais tarde,
Investes rapidamente, alcanças o que pretendes,
Sabes que encontrarás novos capítulos adiante,
Encontramo-nos, e reencontramo-nos,
Reages instintivamente, deixas-me boquiaberto,
Em cada novo degrau, distribuis os teus sonhos comigo,
Sabes que procurarei segui-los bem de perto,

Sentimos todas as mudanças, reunimo-nos,
Encontro-te no outro lado, mas seguiremos juntos,
Rumo encontrado, desafios partilhados meu AMOR.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Absence of Proof

He always felt like living outside his own body, as if constricted by his upsetting nonexistence, it wasn't total happiness neither it was a full body rejection, he also was able to somehow transmit carefully thought ideas to the other side, but the majority weren't translated into words at all, or even kept by the visible portion of him, all wishes, desires and yet to become unfulfilled dreams were put aside as soon as they left the main building, not everything was lost though, some of it came out and escaped the censorship created by his only link into this world, imagine being kept locked inside an apartment, all things are accumulated as time goes by, all limited by a very restrictive bottleneck to the outside, also like living inside a cracked dome, where you continue to grow uncontrollably until a inescapable painful death suffocates you at the end, there's no way to properly handle all the annoyances, afflictions and pain inflicted to the inner self, enslaved by his own body, limited to a set of rules, forced offerings...

(there is no truth, there is only uncertainty)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

desocupar forçado

Deserto encoberto, sobretudo apropriado,
Vestígios sórdidos de outrora,
Cercam-lhes o rumo, subtraem-lhes o esforço,
Severo fado, perda iminente, seus usurários!!!

Destroçados, abandonados, sorvem-lhes o destino,
Surto violento, abençoado desafio,
Derrubam-lhes o orgulho, mas não o ânimo,
Vaidade desaparecida, brio recuperado.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

reeditar possibilidades

Depósito ambivalente, atestado,
Agrafos devolvidos, fendas a descoberto,
Tarefas prescritas, deméritos enunciados,
Estrutura que sucumbe, de livre passe,

Desrespeito o tédio, faço figas, teorizo,
Contradigo e aprofundo, elimino alíneas anteriores,
Quebra iminente, cegueira provisória,
Fogo posto, acumulação e desvio,

Frasco quente, enfraquecido, indefinido,
Portinholas, aberturas, filtros de ideias,
Escape, desgaste e enrijecimento gradual,
Robustez restabelecida, matiz opaca.

reconsidero cada novo disparo

Gatilho recostado, polegar receoso e incómodo,
Cicatrizado, mordido e enrugado pela atmosfera premente,
Joguete impreciso, brinco apontando de lado,
Desdobra-me o medo, fome insaciável,
Cobiço a amargura causada há pouco,

Botija aquecida, de gasto desgovernado,
Apodera-se de mim, entristece-me o método,
Desligo o apuro consciente, deixo-me contratar pela falta de discernimento,
Saldo a dívida, esqueço-me do ocorrido,
Evito falsas lembranças, novos tormentos se seguirão.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

de mão fechada

Aleijado, corpo estropiado e inábil,
Prurido imposto, ânsia desesperante,
Cólera pujante, alivio imediato,
Porção ferida, lâmina encostada ao dorso,

Saliva, espuma e o soluçar, vira-lhe o lábio ao avesso,
E perfura-lhe o rosto de espigão colocado entre dedos,
Suco encarnado que escorre ao longo do metal gélido,
Mais uma vida que se esgota, mais uma vitima dominada.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

vog ad doa

Prevaricador, educado ao açoite, castigado e olvidado,
De gravata apertada custa-lhe a engolir, não o consegue,
Cravam-lhe os espinhos na garganta, a dor que incutiu,
As raspas de bom senso apressam a sua descida ao desassossego,
Pegam-lhe as chamas, envolvem-no como se de causas perdidas se tratassem.

aetr om

Submeto-me a todos os itens, a todas as ferramentas,
Ao manuseio, prática e cautela tomados,
Combinam todos os utensílios, investem com toda a experimentação,
Contrário ao que dizem, sinto a primeira incisão,
O raspar e o ensurdecer, as marcas e a falta,

No contentor amontoam-se todas as peças, o retalhar prossegue,
Injectam-me o consciente, destroem-me as lembranças,
Bloqueado arremesso o que me resta, idealizo definhando,
Desobrigo-me e encerram-se as portas, sem retorno evidente.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

peltz noii afck

Espaço constrito, rejeitamos os seus compostos,
Prateleiras moldadas às estruturas de malha que as comportam,
O solo revela-se demasiado frágil, afundamo-nos,
Sufocamos nesta epiderme que nos refreia sem nos darmos conta,

O espaço enche-se de terra, mas é um plano separado,
É-nos permitido o chacoteio dos nossos corpos,
Observamos as raízes das ervas daninhas,
A deterioração muscular e as convulsões ininterruptas,
Os incorpóreos desprezam os fétidos hirtos.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

"Morte" por Capicua

Capicua que representa o espaço devoluto
O avizinhar de um novo millenium...

Os dias que já se foram,
Comédias e sátiras e promessas,
Estimativas embora falsas,
E realidades Impossíveis

Rancor! Que Indicado!
Modelos e esquemas de compressão

O virar de outras horas,
Respeitar os factos e provocar distúrbios dos que crêem começar,
Imaginar as figuras desfiguradas,
E regressar à animação inanimada.

domingo, 11 de janeiro de 2009

O Armazém

Ainda não mo permiti, mantenho-me atento,
Retenho o inabalável, Retenho-me incauto,
Julgo-os pelos encontrões dados, incipientes!
Aquando derrubado, lanço-lhes consequentes perdas,
Cuspo-lhes sangue, que lhes escorra pelas palmas das mãos,
Para que se infectem a eles próprios, nem para tal os auxilio.

Ignoro os seus passos, o arrastamento constante,
A contrariedade de que padeço, e o meu impedimento para tal,
Impossibilitados e demovidos, de marionetas se tratam,
De trajes rasgados, inutilidades, isso sim! ah!
Não lhes fazem falta, não passam de lâmpadas fundidas!
Debruço-me sobre todos e fecho as pálpebras deste meu armazém.

Aperto

Excluo-te, desgostoso e intoxicado,
Obtenho um sabor amargo dos teus lábios,
Não mais estás presente, rejeito-te,
Procuro que te afastes, que não mais te faças sentir,
Não por estes lados, não de encontro a mim,
Trocaste-me as voltas, retiro-te esse direito.

Completavas-me, eras o meu todo,
Mesmo que considerado desviante, foi-me permitido,
Esse amor, agora destituído do seu cargo,
Composto pela falta de animosidade, pela ausência,
Pela ruptura de todos os meios, devorado,
Tal como nos fora indicado, tal como fora imposto.

Plástico

Encontro-te perto, e de gume aguçado maltrato-te,
Transporto-te pelas ruelas como um naco,
E retiro-te o brilho que o teu corpo insiste em reanimar,
Não conseguirás reorganizar esse teu fôlego,
Impeço-te a entrada neste circulo,
Atreve-te! Experimenta um abrigo e verás.

Reconstituo o gatilho e deixo-te sozinha,
O plástico que te envolve desacredita-te,
Despoleta uma deterioração repentina,
Contracto o teu lugar por debaixo da campa,
Demarcada pela tristeza devida,
Pela retirada de ofensas e suplícios.